Design: mais que um produto visual.

Quando o assunto é design, dificilmente pensamos na música ou em uma instalação totalmente tátil, na qual a visão é desnecessária. Essa redução traz problemas para que ele possa ser visto como um verdadeiro agenciador capaz de produzir associações. Analisá-lo como uma potência criativa que gera agenciamentos é uma tentativa de aproximá-lo do público para que entendam como são criadas essas relações, é torná-lo mais humano e estreitar a distância entre objeto e observador.

O design há muito tempo estendeu seu campo mais conhecido, o visual, para começar a trabalhar em outros campos. O fato de ter deixado seu lugar comum para atuar em mais áreas do sentido já nos permite mensurar a importância e a relevância que isso carrega. Ele é uma das formas mais amplas e complexas de expressão e tem poder para afetar e criar vínculos independentes, que podem surgir por meio de uma mensagem pré-determinada ou não. Por isso, é considerado por muitos como um meio de comunicação, visto que os meios são instrumentos utilizados para passar uma mensagem e, nesse caso, o design é confundido com publicidade, marketing ou até mesmo desenho.

Como diria Lucília Borges em Design Desejante: a dobra como espaço e(ntr)e, “aqui o alvo não é o fim, mas o meio de onde brotam as sensações”. Essa frase ilustra exatamente a preocupação no modo como o público se relaciona e cria experiências ao entrar em contato com determinado “produto”. O designer thinker e cientista cognitivo Donald Norman tenta explicar em seu livro, Design Emocional: porque adoramos (ou detestamos) os objetos do dia a dia, como podemos vivenciar essa experiência dividindo-a em três níveis:

1. Visceral
Este nível é ligado ao nosso instinto, à primeira reação causada pelo contato. Está além do nosso controle, em uma área subconsciente que faz com que gostemos mais disso do que daquilo. Essa primeira atração, que está totalmente ligada à estética, nos faz acreditar na melhor usabilidade ou comunicação do “produto”.

2. Comportamental
É nesse segundo momento que as coisas acontecem e a beleza é substituída por outras relações. Agora o prazer pelo uso, pela forma fluida e sem problemas toma as rédeas. Nesse nível, a sensação de controle, compreensão e eficácia que tal design tem para concluir a tarefa que lhe foi dada torna-se o mais importante.

3. Reflexivo
O terceiro e último nível apontado por Norman trata do superego, agora o que conta está além da estética e da praticidade. Nessa hora, a experiência de familiaridade nos envolve e a reflexão é sobre o quanto o design se parece conosco, como nos sentimos ao usá-lo e o que as pessoas enxergam disso. Está ligado à personalidade, ao status social que queremos mostrar e às associações que serão feitas.

Analisando a proposta de Norman e a preocupação de Lucília, notamos que o design está além de uma produção de bens para consumo e que ele pode ser um projétil, não no sentido de uma arma de fogo, mas como um artifício que tem potência para atravessar um corpo e afetá-lo criando novas mensagens e relações. Todas essas trocas de informação criam novos processos cognitivos que comunicam de alguma forma e nos faz compreender o porquê a concepção de beleza, a facilidade no uso de determinado produto ou a recepção de uma mensagem, o poder que uma música, um quadro ou um objeto trazem não é o mesmo para cada pessoa.

Design é uma questão de escolha, com disparos que podem sair de qualquer lugar para chegar a qualquer outro. Talvez seja essa incerteza que faz com que algumas pessoas não o considerem um verdadeiro meio de comunicação.

Bibliografia

BORGES, Maria Lucília. Design Desejante: a dobra como espaço e(ntr)e. 2008. 200 páginas. Tese – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP.

NORMAN, Donald A. Design Emocional: porque adoramos (ou detestamos) os objetos do dia-a-dia. Local de publicação: ROCCO, 2008. 323 páginas.